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Cultura

Compartilhamos poemas. Será que lemos?

Em resumo

Um poema enviado a alguém pode dizer bastante sobre quem o escolheu. Amanda Gorman, Ryane Leão e Cécile Coulon dão vontade de continuar a leitura depois do verso em que a gente se reconhece. Seus textos também nos aproximam de vidas que nunca vivemos.

Desenho a tinta preta de uma caneta de pena sobre uma página manuscrita, ao lado de uma flor e algumas folhas de grama, sobre fundo marfim.
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Mandar um poema a um amigo pode dar a sensação de se expor. Outra pessoa escreveu aquelas palavras, mas a escolha é nossa. Com elas, conseguimos enviar uma frase que estava difícil de escrever.

Não me incomoda que alguém descubra um poema no Instagram. Eu teria mais receio de uma leitura que termina no verso que cabe numa publicação. Um detalhe adiante talvez complique aquele sentimento que ficamos tão satisfeitos em reconhecer.

Uma voz diante do país

Amanda Gorman leu The Hill We Climb na posse de Joe Biden, em 20 de janeiro de 2021. Já tinha publicado um livro e, em 2017, havia se tornado a primeira National Youth Poet Laureate dos Estados Unidos.

O poema se dirige a um país. Dentro dele, aparece uma jovem negra, descendente de pessoas escravizadas e criada por uma mãe solo. A voz que convida os outros a imaginar um futuro também tem uma história para contar.

Vale ouvir Gorman lendo. Ela repete “arms”, passando das armas aos braços que acolhem alguém. O sentido muda enquanto escutamos a palavra. Uma citação na tela pode levar o leitor a procurar essa leitura em voz alta.

As amigas chegam

Ryane Leão compartilha seus textos no Instagram há mais de dez anos, segundo sua editora. O livro Ninguém pode parar uma mulher ventania, de 2025, inclui “quando os amores findam inesperadamente”, sobre os dias que seguem o fim de um amor.

As amigas vêm. Desfazem as tranças de quem está sofrendo e trocam os lençóis. Mais tarde, perguntam onde ficam as coisas na cozinha. A televisão permanece desligada.

Leão dá à amizade alguma coisa para fazer enquanto a pessoa machucada mal consegue atravessar o dia. O poema se dirige a um “você”, colocando quem lê dentro desse cuidado. Poderíamos mandá-lo a alguém depois de uma separação, junto com a proposta de fazer uma visita.

O corpo nas palavras

Les Ronces, de Cécile Coulon, saiu em 2018. A autora conta que reuniu poemas publicados na internet entre 2010 e 2017, depois de uma primeira recusa de publicação em papel. A leitura de poucos segundos pode esconder anos de escrita.

Em “Courir”, uma força voraz habita articulações que rangem à noite. A corrida fica um pouco menos familiar. Eu gostaria de demorar nessa imagem antes de decidir como ela se relaciona comigo. Um poema pode deixar alguma coisa sem resposta depois da primeira leitura.

As palavras que buscamos no outro

A poesia talvez esteja entre as coisas mais humanas que fazemos. Custa explicar um sentimento. Procuramos palavras para que alguém o compreenda, sabendo que isso pode não acontecer.

Penso nas amigas de Leão perguntando onde estão as coisas na cozinha. Vieram ajudar e ainda precisam de orientação. Esse detalhe guarda o jeito desajeitado de cuidar de alguém cuja dor não conseguimos sentir exatamente como ela sente.

Um poema pode nos aproximar assim de outra pessoa. Reconhecemos um gesto, estranhamos uma imagem e damos atenção, por um instante, à experiência de alguém. Às vezes, enviamos aquelas palavras na esperança de alcançar uma pessoa com quem está difícil conversar.

A mensagem pode ser só um link, seguido de: pensei em você.

Fontes e referências

  1. Academy of American Poets: Amanda Gorman
  2. Harvard Gazette: The Hill We Climb, texto e leitura, 20 de janeiro de 2021
  3. Planeta: biografia de Ryane Leão
  4. Planeta: amostra oficial de Ninguém pode parar uma mulher ventania, poema na página 13
  5. Cécile Coulon: Les questions des lycéens, 20 de novembro de 2025
  6. Le Castor Astral: Les Ronces
  7. Marché de la Poésie de Bordeaux: trecho de Courir

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