Quando a IA escreve o primeiro rascunho, quem faz o resto?
Em resumo
A IA põe mais ideias na mesa de quem escreve ou projeta. Alguém ainda precisa escolher o que vale a pena guardar, verificar o resultado e pôr esse tempo na conta.

No meu primeiro rascunho, eu tinha escrito que a inteligência artificial só ampliava o talento de quem a usava. Gostei tanto da ideia que ela apareceu duas vezes no texto. Pedi a uma IA que me ajudasse a revisar a crônica. Ela me sugeriu um estudo que me deu motivo para repensar a abertura.
Anil Doshi e Oliver Hauser pediram aos participantes de um experimento que escrevessem histórias curtas. Alguns receberam ideias geradas por IA para começar. Os leitores consideraram suas histórias mais criativas, sobretudo quando os autores tinham obtido pontuações mais baixas no teste de criatividade dos pesquisadores. Lidas em conjunto, porém, as histórias escritas com essa ajuda se pareciam mais entre si. Dava para ler histórias melhores e, ao mesmo tempo, ter mais vezes a impressão de já ter lido aquela história.
Inteligência assistida
Em 1955, John McCarthy e três colegas usaram a expressão “inteligência artificial” numa proposta para um encontro de pesquisa em Dartmouth. Partiram de uma hipótese ambiciosa. Se capacidades como aprender ou usar a linguagem pudessem ser descritas com precisão suficiente, uma máquina seria capaz de simulá-las.
Quando reviso um texto com uma dessas ferramentas, prefiro pensar em inteligência assistida. Posso pedir uma pista, ir atrás do estudo e decidir o que aproveitar. Em física quântica, eu teria muito mais dificuldade para fazer essa triagem. Basta um pouco de grego no meio de uma equação para me impressionar. Eu poderia aprender o básico com a ferramenta. Para defender uma ideia nova, também teria de saber como colocá-la à prova.
Um apartamento para observar pássaros
Num estudo de projeto, Linus Tan e Max Luhrs imaginaram um apartamento para um observador de pássaros. Usaram o Midjourney para explorar formas e espaços. Uma das primeiras imagens, inspirada no traçado das ruas e nos arranha-céus de Melbourne, era abstrata demais para orientar o trabalho. Outra, mais adiante, sugeriu plataformas de observação em alturas diferentes. Eles aproveitaram essa ideia no projeto.
O artigo mostra as imagens e a proposta arquitetônica a que chegaram. Entre uma coisa e outra, eles tiveram de pensar em como os espaços se encaixariam em três dimensões. Eu provavelmente ainda estaria escolhendo a imagem de que mais gosto quando eles começassem a desenhar um corte.
O tempo que a gente esquece de contar
Uma equipe pode aproveitar a velocidade da IA para explorar mais ideias. Também pode ver nessa velocidade um motivo para colocar menos gente num projeto. A primeira versão chega rápido nos dois casos. Se eu estivesse fazendo as contas, gostaria de saber quanto tempo leva a revisão, quem faz esse trabalho e se essa pessoa ainda pode mandar o resultado de volta.
Também tem a eletricidade. A Agência Internacional de Energia observa que o consumo por tarefa está caindo, enquanto mais gente usa essas ferramentas e aplicações como a geração de vídeo exigem mais processamento. No cenário central da agência, o consumo de eletricidade de todos os centros de dados do mundo passaria de 485 TWh em 2025 para cerca de 950 TWh em 2030. O dos centros voltados para IA triplicaria no mesmo período. Uma versão a mais pode estar incluída na minha assinatura. Num serviço usado todos os dias, essas versões entram na conta.
Eu poderia ter cronometrado a primeira resposta da IA ao meu texto. O número teria ficado bonito. Também teria de contar o tempo que passei pensando se ainda concordava comigo mesmo.
Fontes e referências
- Anil R. Doshi e Oliver P. Hauser, experimento sobre a escrita de histórias curtas. Science Advances, 2024
- John McCarthy, Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon, proposta de pesquisa para o verão de 1956. Documento original, 1955
- Linus Tan e Max Luhrs, estudo de projeto arquitetônico com o Midjourney. The Design Journal, 2024
- Agência Internacional de Energia, projeções globais de consumo de eletricidade dos centros de dados. Key Questions on Energy and AI, 2026