Moda
Thierry Mugler: anatomia do poder
Em resumo
Thierry Mugler desenhava o corpo por meio da roupa. A precisão dos tailleurs chegava às armaduras articuladas, enquanto os desfiles e as fotografias davam vida às personagens. Seu nome também se tornou conhecido pelo perfume e pela música. Hoje, Miguel Castro Freitas cria suas coleções a partir desse repertório.

A cintura é estreita. Os ombros parecem ainda mais largos. Num tailleur da coleção “Hiver Buick”, outono-inverno de 1989, preservado pela Fondation Azzedine Alaïa, o casaco de grain de poudre preto acompanha uma saia reta. A descrição é simples. Nas proporções, já se reconhece Mugler, antes de procurar qualquer detalhe.
Ele havia sido bailarino profissional. Anos depois, numa conversa com Tippi Hedren, explicaria seu interesse pelos ombros falando da posição do pescoço e da postura de quem dança. A cabeça faz parte da leitura da roupa. Quando a mulher muda a maneira de se sustentar ou de caminhar, o casaco também ganha outro aspecto.
Vestir uma personagem
“Café de Paris”, sua primeira coleção, foi apresentada em 1973. No ano seguinte, a marca adotou seu nome. Mugler passou anos desenvolvendo aquela precisão no prêt-à-porter antes de receber, em 1992, o convite da Chambre Syndicale de la Couture Parisienne para apresentar sua primeira coleção de alta-costura.
Na ocasião, levou peças das duas categorias à passarela. O FIDM Museum registra que ele considerava o trabalho de seu prêt-à-porter tão exigente quanto o da alta-costura. Os tailleurs merecem espaço nessa história, mesmo com tantas imagens de criaturas extraordinárias disputando nossa atenção.
Nosso recente carrossel no Instagram tratava da anatomia e da sensação de poder. Mugler disse à Vogue France que queria ver as mulheres se sentindo poderosas e respeitadas. Na mesma entrevista, lembrou as personagens andróginas de seus desfiles, inclusive mulheres de bigode postiço. Havia prazer em brincar com a própria aparência. Já a liberdade sentida dentro de uma silhueta tão ajustada depende de quem a veste.
O ingresso para o desfile
Em 1984, quatro mil pessoas compraram ingresso para assistir ao desfile Mugler no Zénith, em Paris. O público total era de seis mil. Uma coleção havia se tornado um programa pelo qual se pagava, com cenário e iluminação pensados para a entrada das modelos.
Na conversa com Hedren, ele se descreveu como diretor de cena. O desfile dos vinte anos, no Cirque d’Hiver, em 1995, deu uma dimensão espetacular a essa maneira de trabalhar. O corte de uma peça ajudava a definir a personagem antes que a modelo atravessasse a sala.
A Maschinenmensch, de 1995, era uma armadura robótica articulada. Mugler usava vidro, Plexiglas e cromo, trabalhando com Jean-Pierre Delcros, especialista em chaparia aeronáutica, e com o artista Jean-Jacques Urcun.
Lemarié confeccionou asas de borboleta em penas para Les Insectes, em 1997. La Chimère, do outono-inverno de 1997–1998, reuniu Urcun e o corsetier Mr Pearl. Escamas e bordados cobriam o corpo com uma superfície animal, que também incluía penas e crina de cavalo.
Gostaria de observar as fixações dessas roupas. O peso precisa se apoiar em algum lugar; uma borda rígida encontra a pele, e uma articulação deve acompanhar o movimento de quem está dentro dela. A fotografia deixa essas questões em aberto. Examinar sua construção também daria aos colaboradores um lugar mais preciso numa história geralmente contada sob um único nome.
As roupas em outras cenas
Mugler fotografava suas campanhas no telhado da Ópera de Paris ou nas alturas do Chrysler Building, em Nova York. O contorno da roupa permanecia legível diante da arquitetura. O vazio ao redor das modelos aumentava a estranheza das figuras.
O clipe “Too Funky”, de George Michael, em 1992, levou suas criações e sua direção de cena ao público da música. Em 2009, ele trabalhou na turnê I Am…, de Beyoncé. As roupas encontravam outras intérpretes, novas situações em que poderiam ser vistas em movimento.
Angel havia sido lançado em 1992. O perfume ajudou a estabelecer a perfumaria gourmand, e o frasco em forma de estrela podia apresentar o nome Mugler a alguém que nunca tivesse acompanhado um desfile. Ele dizia ter concebido a fragrância, as fotografias e a tipografia como partes do mesmo trabalho.
Couturissime, inaugurada em Montreal em 2019, reuniu roupas, fotografias e criações para o palco. Miguel Castro Freitas, diretor criativo desde abril de 2025, trabalha hoje com esse acervo de referências. The Commander, outono-inverno de 2026–2027, aborda o power dressing. Segundo a marca, Naturalia X, sua coleção de passarela mais recente, primavera-verão de 2027, explora os instintos animais e o erotismo.
O corte ainda permite investigar essas referências. Um ombro pode alterar as proporções aparentes do corpo dentro das dimensões de um casaco comum. Mugler dedicou anos a essa possibilidade. Seu sucessor tem espaço para procurar ali suas próprias formas.
Fontes e referências
- Fondation Azzedine Alaïa: coleção Thierry Mugler
- ASU FIDM Museum: Thierry Mugler
- Entrevista com Tippi Hedren, Interview, 7 de junho de 2019
- Entrevista com Thierry Mugler, Vogue France
- Musée des Arts Décoratifs: Couturissime
- Brooklyn Museum: dossiê oficial de Couturissime
- Musée des beaux-arts de Montréal: Couturissime, 2019
- Fédération de la Haute Couture et de la Mode: Mugler
- Mugler: The Commander, outono-inverno de 2026–2027
- Mugler: Naturalia X, primavera-verão de 2027